Nós iniciamos esclarecendo a dúvida central: quando falamos de dependência, referimo-nos a um transtorno associado ao uso de substâncias, distinto de intoxicação por preparo contaminado.
Relatos em festas e na internet geram apreensão entre familiares. Por isso, nossa intenção é trazer informação clara e baseada em evidência. Dados técnicos apontam risco maior de exposição a metais do que efeito alucinógeno comprovado.

Vamos explicar o que compõe esse preparo, mostrar a diferença entre vício e intoxicação e indicar quais metais podem afetar a saúde. Também diremos o que fazer em caso de emergência.
Nossa postura é de acolhimento: orientar redução de risco, encaminamento a serviços e apoio sem julgamentos. Se houver sinais graves, priorize atendimento imediato, não aguardar.
O que é chá de fita e por que esse “chá” virou assunto no Brasil
Algumas descrições de um infuso feito com tiras magnéticas se espalharam por fóruns e em eventos. Nós definimos esse preparo como uma infusão doméstica feita ao aquecer e coar pedaços de material magnético em água antes da ingestão.

Como cassete e VHS entram no processo
Em relatos, a fita cassete e o rolo VHS são citados como fonte do material que é fervido. A lógica é extrair componentes solúveis, embora não haja princípio ativo alucinógeno conhecido na base magnética.
Onde a prática aparece com mais frequência
Reportagens e testemunhos apontam raves, micaretas e comunidades online como os locais mais comuns. A circulação em redes e fóruns contribui para a sensação de novidade entre jovens.
- Por que ganhou tração: curiosidade, baixo custo e cultura experimental em festas.
- Risco de normalização: rotular como alternativo pode reduzir a percepção de perigo.
- Aviso para familiares: o preparo caseiro não é seguro e pode elevar risco de intoxicação por contaminantes.
| Material | Onde aparece | Risco principal |
|---|---|---|
| Fita cassete (K7) | Raves, fóruns | Contaminantes metálicos |
| VHS | Micaretas, relatos online | Resíduos plásticos e lubrificantes |
| Extratos caseiros | Grupos de experimentação | Intoxicação e confusão com outras drogas |
Para avaliar se isso gera vício é preciso distinguir claramente entre dependência, intoxicação e uso concomitante com outras substâncias. Seguimos para essa análise na próxima seção.
Chá de fita causa dependência química?
Profissionais têm observado em atendimentos sinais que confundem intoxicação com transtorno por uso. Nós explicamos a diferença e os riscos quando há consumo misto.

Dependência vs. intoxicação: por que se confundem
Intoxicação e transtorno por uso podem gerar descontrole, alterações na consciência e necessidade de socorro. Porém, as causas e as condutas clínicas divergem.
O que profissionais observaram em atendimentos
Relatórios do CEAD indicam poliuso frequente, muitas vezes com álcool, cocaína e maconha. Há registro de um caso grave em jovem de 16 anos, segundo a psicóloga Sabine Cavalcanti.
“O efeito de dependência é rápido em contextos de múltiplas substâncias”, afirma Luiz Roberto Tenório.
O que esse alerta significa
Em poliuso, sintomas de fissura e repetição podem estar ligados a outras drogas e ao padrão social de uso, não apenas ao preparo. Nós orientamos familiares a observar escalada, isolamento, agressividade e queda no desempenho.
Orientação prática: quando houver consumo combinado, procure avaliação profissional que considere poliuso e comorbidades para reduzir riscos e recaídas.
O “barato” existe mesmo ou é mito? O que a ciência e a perícia indicam
Testemunhos de usuários descrevem sensações intensas; porém, exames laboratoriais não confirmam um princípio ativo psicodélico.

Por que não há evidência de componente alucinógeno
Perícia e estudos concluem que não há compostos orgânicos conhecidos com ação psicodélica nas amostras analisadas.
Silvia Cazenave, perita criminal, afirma que o preparo não é alucinógeno e que relatos de “barato” podem refletir uso combinado com outras drogas.
Placebo e mistura: explicações plausíveis
Lehmann et al. (2016) detectaram metais — Mn, Co, Ni e Cr — em níveis elevados, até 5 vezes acima do limite para água, mas não encontraram agentes alucinógenos.
Expectativa, ambiente de festa, sono reduzido e desidratação podem intensificar percepções. O efeito pode surgir sem um princípio ativo claro.
- Aviso: Não ser alucinógeno não torna o consumo seguro; metais e contaminantes trazem risco de intoxicação.
- Seguimos para a parte técnica: entender a composição ajuda a orientar prevenção e atendimento.
| Fonte | Achado | Implicação |
|---|---|---|
| Perícia (Silvia Cazenave) | Sem componente alucinógeno | Relatos podem refletir poliuso |
| Lehmann et al. (2016) | Metais elevados (até 5 vezes) | Risco de intoxicação |
| Literatura clínica | Fenômeno de placebo/expectativa | Explica parte dos relatos |
O que tem dentro da fita e o que pode parar no organismo
A construção das fitas revela elementos que não deveriam ir para o corpo humano. Nós descrevemos a composição em termos simples e o que pode migrar para um líquido quente.
Do que as fitas são feitas
Fitas K7 e cassete e rolos VHS têm uma base plástica (acetato, PVC ou poliéster) e uma camada magnetizável com óxidos de ferro ou cromo.
Também contêm lubrificantes e cola orgânica. Aquecer esses materiais em água não gera um princípio psicoativo conhecido. Porém, pode liberar resíduos.
Metais detectados em análises
Estudos identificaram manganês (Mn), cobalto (Co), níquel (Ni), cromo (Cr) e zinco (Zn) em concentrações elevadas.
Andrade et al. registrou Co 415, Ni 202, Mn 1389 e Zn 2397 μg/L em algumas amostras.
Como tipo de fita e extração mudam o risco
Lehmann et al. mostrou variação: Mn tende a ser maior em infusões de K7; Cr aparece mais em VHS.
O método de aquecimento, tempo e temperatura também influenciam a migração. Isso torna o consumo imprevisível.
- Alerta: menções a chumbo surgem em relatos, mas a preocupação real é a carga acumulativa de metais.
- Saúde pública: exposição repetida pode levar a efeitos neurológicos e sistêmicos.
Riscos à saúde associados ao consumo: neurotoxicidade, visão e efeitos de longo prazo
A exposição repetida a metais presentes em preparos improvisados pode causar danos que surgem semanas ou meses depois.
Manganês (Mn): em excesso, leva ao manganismo, quadro similar ao Parkinson. Observa-se bradicinesia, rigidez, distonia e alterações na marcha. Esses sinais podem ser confundidos com efeitos agudos de droga.
Cobalto (Co): pode afetar a visão. Há descrição de atrofia do nervo óptico, disfunção retinal e lesão macular que explicam relatos de usuários com perda visual.
Cromo e níquel: formas oxidantes do Cr são mutagênicas e carcinogênicas; Ni também tem potencial genotóxico e carcinogênico. Exposição repetida aumenta o risco a longo prazo.
Bioacessibilidade e absorção
Um estudo mostrou que Co, Ni e Mn foram totalmente bioacessíveis in vitro. Isso indica potencial de absorção quase completa pelo trato digestivo.
- Mensagem principal: o problema não é só um “barato”, e sim risco neurológico e sistêmico por metais.
- Atenção: combinação com álcool ou maconha aumenta chance de colapso clínico e, em situações extremas, morte.
- Orientação: qualquer sinal neurológico ou visual após consumo deve motivar avaliação médica urgente e evitar nova exposição.
Quando o consumo vira emergência: sinais de intoxicação e o que fazer na hora
Quando alguém apresenta alteração súbita de comportamento após ingestão, trata‑se de uma emergência possível. Nós devemos agir com rapidez e segurança.
Sintomas que exigem atendimento imediato
Procure ajuda se houver perda de consciência, convulsões, falta de ar, dor no peito ou vômitos persistentes.
Outros sinais críticos: desorientação intensa, agressividade fora do padrão e qualquer piora rápida do estado geral.
O que fazer no momento
- Acionar o SAMU (192) ou levar ao pronto atendimento sem demora.
- Manter a pessoa em posição lateral de segurança se estiver sonolenta ou vomitando.
- Não oferecer bebidas, remédios caseiros ou tentar “neutralizar” o efeito.
- Não deixar a pessoa sozinha e evitar confrontos se houver agitação.
| Informação para relatar | Por que é útil |
|---|---|
| O que foi ingerido (ex.: chá, chá fita, álcool) | Ajuda a equipe a avaliar o risco de toxinas e a conduta clínica |
| Horário e quantidade aproximada | Direciona medidas de descontaminação e monitoramento |
| Sintomas observados e comorbidades | Permite priorizar suporte respiratório, cardíaco ou neurológico |
Contexto clínico: no CEAD houve registro de um caso grave em adolescente de 16 anos, o que reforça que jovens podem evoluir rápido para quadros severos. A combinação com álcool e outras substâncias aumenta risco de rebaixamento do nível de consciência e morte.
Informação e apoio para quem foi exposto: como reduzir danos e buscar ajuda com segurança
Se houve exposição, o passo imediato é monitorar sinais nas horas e dias seguintes. Observe alterações na visão, tremores, sono, humor ou fraqueza. Procure avaliação médica se qualquer sintoma persistir.
Mesmo um único uso do chá fita merece atenção. Estudos mostram que alguns metais têm alta bioacessibilidade e o risco cresce com repetição.
Redução de danos: evite nova exposição, não misture substâncias (álcool ou maconha), mantenha hidratação e não dirija. Rejeite “receitas” da internet e busque orientação profissional.
Com jovens, priorize o diálogo cuidadoso e sem culpa. A família deve registrar episódios, limites e sinais observados para facilitar avaliação clínica.
Estamos prontos para apoiar: se houver padrão de uso ou preocupação, faça a busca por atendimento especializado para avaliar poliuso, comorbidades e planejar cuidado contínuo.