Nós apresentamos um guia inicial sobre um tema sensível e crescente em ambientes de alta cobrança acadêmica.
O foco é contextualizar por que o recurso a certos medicamentos entre estudantes não se reduz à falta de vontade, mas surge de pressões, expectativas e reforços psicológicos.
Reportagens, como a do Jornal da USP, mostraram melhora momentânea de atenção e desempenho com psicoestimulantes, porém também alertaram para riscos.
Em pessoas saudáveis, os efeitos costumam ser pequenos e passageiros, e há relatos de insônia, ansiedade, palpitações e alterações de humor.
Queremos diferenciar uso terapêutico monitorado do uso voltado só ao rendimento, e antecipar as consequências: prejuízos ao sono, ao humor e risco de dependência ao longo do tempo.
Nesta sequência, vamos explicar motivações, mecanismos no sistema nervoso central, sinais de dependência psicológica e estratégias de ajuda com foco na autonomia e na saúde mental.

Por que estudantes e universitários recorrem a medicamentos para aumentar atenção e desempenho
Pressões acadêmicas e jornadas exaustivas empurram muitos jovens a buscar soluções rápidas. Nós vemos competitividade, medo de ficar para trás e semanas de provas como gatilhos que aumentam o uso entre estudantes.
Bernardi et al. (2025) descreveu que cursos intensos, especialmente medicina, elevaram a busca por psicoestimulantes, ansiolíticos e antidepressivos sem supervisão. Uma pesquisa da Universidade de Exeter também registrou crescimento no consumo de modafinila durante a pandemia.
Competitividade e exaustão como gatilhos
Quando a carga é contínua, o cansaço acumulado leva muitos a tentar “empurrar” a produtividade. Isso reduz a capacidade de descanso e aumenta risco de colapso físico e emocional.
O que integra o universo das smart drugs
Nesse contexto surgiram psicoestimulantes e fármacos para narcolepsia. Entre os nomes citados estão metilfenidato, lisdexanfetamina e modafinila.
- Psicoestimulantes (ex.: metilfenidato) — aumento temporário de atenção.
- Modafinila — uso off-label para vigor cognitivo.
- Ansiolíticos/antidepressivos — usados para sono ou controle de ansiedade.
Prescrição x uso sem indicação: onde começam os problemas
A questão não é só o que se toma, mas como: dose, frequência e combinação sem acompanhamento elevam riscos. Compartilhar receita e compra irregular normalizam o consumo entre pares.
| Substância | Uso comum | Efeito buscado | Risco principal |
|---|---|---|---|
| Metilfenidato | Transtorno de atenção (prescrição) / uso não indicado | Maior foco e vigilância | Insônia, ansiedade, dependência |
| Lisdexanfetamina | TDAH (prescrição) / uso recreativo | Estimulação prolongada | Taquicardia, irritabilidade |
| Modafinila | Narcolepsia (prescrição) / uso off-label | Redução da sonolência, aumento de vigília | Ansiedade, uso sem dados a longo prazo |
Uso de remédio para estudar e vício psicológico
Quando uma estratégia pontual vira rotina, percebemos que a expectativa de rendimento imediato pode prender a pessoa numa repetição que parece funcionar — mas nem sempre melhora o aprendizado.

Dependência psicológica: quando o estudo vira “só consigo se eu tomar”
Definimos dependência psicológica como a convicção persistente de que só há rendimento com a substância. Isso reorganiza a rotina, a autoconfiança e decisões sobre tempo e sono.
Sinais e sintomas que podem aparecer no dia a dia
- Ansiedade antes de estudar sem o medicamento.
- Irritabilidade e oscilações de humor após o efeito passar.
- Insônia, agitação e palpitações que atrapalham o sono.
- Queda no desempenho real, mesmo com mais horas de dedicação.
O ciclo da falsa produtividade
A dopamina cria expectativa e reforço subjetivo. A sensação de foco leva à repetição e, ao longo dos anos, muitas pessoas aumentam frequência ou dose para tentar manter o mesmo efeito.
Quando a queixa pode esconder outro quadro
Nem todo déficit atenção é transtorno primário. Estresse crônico, burnout ou depressão podem simular falta de foco. Diagnóstico correto e avaliação da saúde mental são essenciais para evitar problemas e tratamentos inadequados.
“Reconhecer o padrão não é culpa: é a primeira medida para retomar autonomia.”
Como esses medicamentos agem no sistema nervoso central (e por que o efeito pode ser menor do que parece)

Os psicoestimulantes alteram rapidamente a química cerebral. Isso aumenta a liberação de dopamina e cria mais disposição para estudar.
No entanto, essa maior energia nem sempre vira aprendizado real. Fabiano Moulin de Moraes (Unifesp) explicou que o aumento de engajamento pode não equivaler a melhor retenção.
Sistema, dopamina e distinção entre engajamento e atenção
No sistema nervoso, a dopamina melhora motivação e tolerância ao esforço. O ressentimento percebido de foco pode vir daí.
Estar mais engajado não é igual a ter mais atenção verdadeira. Muitos relatam sensação de produtividade sem ganho objetivo em memória ou resolução de problemas.
Quando o diagnóstico muda indicação e risco
Um diagnóstico correto de transtorno déficit atenção ou déficit atenção hiperatividade altera dose, indicação e monitoramento.
Sem esse diagnóstico, o benefício costuma ser pequeno e o risco de tolerância e uso indevido aumenta. O plano ideal inclui sono, terapia e ajustes acadêmicos.
| Aspecto | Mudança no sistema | Impacto esperado | Risco principal |
|---|---|---|---|
| Dopamina | Aumento de liberação | Mais engajamento | Tolerância e expectativa |
| Vigília | Redução da sonolência | Mais horas estudando | Insônia e queda de performance |
| Diagnóstico | Ajuste de dose | Maior eficácia em transtorno déficit atenção | Uso inadequado sem diagnóstico |
Efeitos colaterais e riscos do uso de medicamentos para estudar no curto e no longo prazo
Mesmo ganhos imediatos de foco podem esconder prejuízos que surgem com o tempo.
Listamos os principais efeitos para facilitar a identificação precoce. Reconhecer sinais ajuda famílias e estudantes a agir antes que haja agravamento.
Efeitos mais comuns
- Insônia, cefaleia e agitação que comprometem consolidação da memória.
- Alterações de humor e irritabilidade que atrapalham rotina e aprendizado.
Riscos cardiovasculares
Palpitações, aumento da pressão e arritmias podem ocorrer, especialmente em casos com predisposição.
Histórico familiar e condições silenciosas aumentam o risco e exigem avaliação médica.
Impactos na saúde mental
Consumo de substâncias pode agravar ansiedade e depressão. Em situações extremas, há relatos de paranoia e sintomas psicóticos transitórios.
Dependência, tolerância e poliuso
Com o tempo, ocorre aumento da tolerância e necessidade de doses maiores. Isso gera prejuízos cumulativos no longo prazo.
O uso combinado com benzodiazepínicos ou antidepressivos sem orientação eleva risco de interações e efeitos paradoxais.
O que a pesquisa mostra
Bernardi et al. (2025) identificou consumo inadequado entre estudantes de medicina, ligado a pressões acadêmicas e a maior ocorrência de dependência química, efeitos colaterais graves e piora da saúde mental.
“Buscar ajuda diante de palpitações, desorientação ou insônia intensa é prevenção, não exagero.”
Como buscar ajuda e retomar os estudos com segurança, autonomia e cuidado
Quando hábitos prejudiciais aparecem, uma avaliação médica e um plano claro restauram controle e equilíbrio.
Nós orientamos passos práticos: mapear frequência e gatilhos, registrar consumo e buscar avaliação com um médico. Um diagnóstico correto muda a indicação e o tratamento.
O plano de retomada do estudo foca sono, pausas, alimentação e técnicas de planejamento. Metas reais ajudam a medir melhora no desempenho sem depender do atalho.
Para reduzir recaídas, evitar viradas de noite, excesso de cafeína e pressão contínua. Em casos de uso prolongado, não recomendamos mudanças bruscas sem acompanhamento.
Família e rede: converse sem confronto, ofereça apoio para consultas e mantenha limites. Buscar ajuda cedo protege a pessoa e favorece recuperação e autonomia no dia a dia.